A nova vida das próteses

Coletivo de artistas aceita desafio de pintar muros e encaixes de próteses usadas por pessoas amputadas.

*Por Enio Lucciola

A desconcertante imagem de Usain Bolt de prótese, na visão de Fernando Brum

 

 

A imagem de Usain Bolt de prótese é desconcertante. Mesmo sem uma perna, o homem mais rápido do mundo mantém a pose do raio, que o celebrizou.

Recém aposentado das pistas na Olimpíada Rio 2016, o jamaicano recordista mundial de velocidade ressurgiu em muros da Vila Madalena, em São Paulo. E já impactou duplamente seus admiradores.

Primeiro, ao mostrar que a amputação de um membro, por doença ou acidente, pode acontecer com qualquer pessoa. Até com um semi-deus olímpico, dono de dezenas de medalhas de ouro e recordes mundiais dos 100, 200 e revezamento 4 x 100 metros. Depois, ao estimular, subliminarmente, cada portador de deficiência a superar seu limite – e a alcançar seu Olimpo pessoal.

A imagem do maior velocista de todos os tempos de prótese foi pintada no Centro Marian Weiss pelo artista Fernando Brum, ilustrador inspirado que foi chefe da infografia da revista Isto É.

Brum integra um coletivo de artistas plásticos, muralistas, desenhistas, grafiteiros e ícones da arte de rua, que receberam um desafio inédito: pintar, além dos muros, encaixes de próteses, dessas que são usadas pelos amputados.

 

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Os artistas eram pouco familiarizados ao dia a dia de pessoas amputadas, que usam os encaixes na coxa, joelho ou canela para fixar as próteses que substituem suas pernas. Para os amputados, as próteses significam o início de uma nova vida. Fabricados em tons escuros e usados em geral debaixo de calças, saias ou bermudas, os encaixes pintados pelos artistas ganharam cores, beleza e vida. Alguns são decorados com flores, corações ou imagens abstratas permeadas de alegria e alto astral.

A ideia de convidar artistas para pintar encaixes de próteses surgiu de um encontro casual entre o diretor do Centro Marian Weiss, Ian Guedes, e a diretora da arte Thais Rodrigues. O tema escolhido foi “A vida inspira”.

Depois de uma semana de trabalho intenso, as obras ganharam forma nos encaixes e muros da Vila Madalena, bairro paulistano que concentra galerias de arte, grafite e arte de rua – lá fica o famoso Beco do Batman. Mas não foi uma tarefa fácil, reconhece a diretora de arte.

“A gente percebeu o quanto é carente de informação do universo dos amputados. Rolaram muitas emoções. Mas trouxe uma experiência de vida muito legal pra gente”, diz.

Satisfeita com a experiência de resignificação das próteses, Thais Rodrigues está engajada agora na proposta de levar o universo dos amputados a espaços de maior circulação e acesso do público.

 

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Encaixe personalizado por Thais Rodrigues

Encaixe personalizado por Fernando Brum

Encaixe personalizado por Ladislau Souza Jr.

Encaixe personalizado por “Os GDV”

 

Encaixe personalizado por Rafael Frenesi

 

Encaixe personalizado por Mut

 

Artistas e o diretor do Centro Marian Weiss, Ian Guedes

 

 

Serviço: exposição “A vida inspira”

Local: Centro Marian Weiss – Vila Madalena

Artistas participantes: Fernando Brum, Mut, Os GDV, Ladislau Souza Jr, Rafael Frenesi e Thais Rodrigues

 

*Enio Lucciola é jornalista. Trabalhou nas emissoras Globo, SBT e Cultura. Foi chefe de Jornalismo da RedeTV.