O melhor lugar para a pessoa com deficiência fazer turismo

*Por Enio Lucciola

Imagem: William Gomes. Obra “Desvio para o vermelho”, de Cildo Meireles.

 

Esqueça o passaporte. Não perca tempo com visto de turista, nem com cursinho de línguas de última hora. Afinal, o melhor lugar para o deficiente físico fazer turismo fica aqui mesmo, no Brasil. Mais precisamente, em Brumadinho, pequeno município de 38 mil habitantes, na Grande BH.

É lá que foi aberto, em 2006, o Inhotim, um parque de 140 hectares que abriga, ao mesmo tempo, o maior museu a céu aberto do mundo e o mais completo jardim botânico brasileiro, em variedade de espécies.

Você passeia à sombra das árvores, entre nascentes, pontes e  jardins, e conhece um dos mais importantes acervos de arte contemporânea do mundo.

Imagem: Marcelo Coelho. Galeria Adriana Varejão.

 

É uma surpresa atrás da outra. No meio de uma trilha na mata, você topa com uma construção imensa em forma de cristal lapidado. Lá dentro um trator gigante, enlameado, arranca uma árvore do solo, a incrível obra do americano Mathew Barney, de 2009, é ainda um atualíssimo brado de alerta contra a destruição da natureza pelo homem.

Fui duas vezes ao Inhotim, uma delas depois do acidente que me levou à amputação da perna esquerda. Mais que qualquer peça de arte ou arquitetura, o que me impressionou foi a forma acolhedora e profissional como são recebidos os deficientes.

Vai muito além do obrigatório: entradas, saídas e banheiros acessíveis, elevadores, rampas e sinalização em todas as construções que abrigam as coleções.

Logo na entrada, o deficiente é convidado para um tour gratuito de 50 minutos pelas principais obras e paisagens, num carrinho elétrico. Com direito a acompanhante e sem nenhum custo adicional.

 Imagem: Daniela Paoliello. Tamboril.

 

O carrinho é pilotado por uma monitora que fala com desenvoltura sobre as obras e seus autores, e nos ajuda a escolher o melhor roteiro de visita.

Ao final, ainda sem botar a mão no bolso, recebemos uma pulseira que dá acesso às oito linhas de carrinhos que conectam as diversas galerias e pavilhões de exposição.

Tem mais. Se o deficiente está num lugar isolado ou precisa ir a outra linha distante, pode pedir ajuda a um monitor, que acionará o carrinho mais próximo.

Eu estava de muletas. O parque empresta cadeiras de rodas. Se o deficiente traz a sua, um dos carrinhos elétricos vai transportá-la até o local desejado.

Ou seja, o Inhotim nos ajuda a vencer todas as dificuldades de locomoção, que poderiam atrapalhar e, no limite, impedir a visita.

Essa política de tratar os deficientes com respeito – e atenção aos detalhes – é um modelo a ser seguido. O turismo representa 3,5% do PIB brasileiro. Se almeja crescer sua participação e chegar aos 9% que atividade ocupa na economia mundial, o setor deve abrir os olhos e os braços para receber bem os deficientes. Uma turma ainda pouco notada, que merece mais visibilidade. Já somos 46 milhões de brasileiros – ou 24% da população contada pelo Censo de 2010.

Imagem: William Gomes. Vandário com 500 orquídeas.

Imagem: Arquivo pessoal.

Imagem: Arquivo pessoal.

 

*Enio Lucciola é jornalista. Trabalhou nas emissoras Globo, SBT e Cultura. Foi chefe de Jornalismo da RedeTV.