Futebol de amputados permite inclusão social

 

 

O futebol de amputados ainda é uma modalidade pouco conhecida no Brasil e não apresenta relações com a CBF (Confederação Brasileira de Futebol), responsável por gerir não só a seleção, mas também as quatro principais divisões nacionais, as quais apresentam um total 128 clubes. A modalidade é filiada à ABDDF (Associação Brasileira de Desportos para Deficientes Físicos), que não possui recursos financeiros próprios para auxiliar os 22 clubes existentes, conforme explica Willian Leite, coordenador de um time em Campinas que tem parceria com a Ponte Preta. “A entidade nos ajuda com a organização dos campeonatos, mas em relação aos custos com as agremiações nos torneios não”, conta

Na região de Campinas, a modalidade começou graças a Maurício Mendes, o Juninho, idealizador e atualmente jogador no projeto. Desde que nasceu, o rapaz possui uma deficiência chamada fêmur esquerdo curto congênito, mas que não o impediu de jogar bola com os irmãos e amigos na infância. Nota-se que ele é o mais popularizado com o esporte por conta de seu controle de bola e facilidade na corrida e manuseio das muletas.

A prática começou há seis anos, quando viajava nos fins de semana para Mogi das Cruzes, no interior do estado. No entanto, o cansaço e os gastos, que ‘pesavam’ no orçamento, fizeram com que o rapaz parasse de ir frequentemente. “Foi então que pensei na possibilidade de montar uma equipe”, conta. Inicialmente, o projeto recebeu o nome de Cosmocity, porém isso mudou pela parceria realizada com a Ponte Preta no ano passado.

É uma novidade para quem vê o esporte pela primeira vez. À medida que se avista o verde e sintético gramado do Centro de Treinamento Zoom, localizado no Jardim Morumbi, a cena pode até certo ponto parecer estranha. São 12 jogadores que usam o segundo uniforme da Macaca: a camisa preta com listra branca na vertical e o calção escuro que se destacam em meio ao alviverde do campo. Os atletas se equilibram em apenas uma perna com o auxílio de duas hastes de alumínio, popularmente conhecida como ‘muletas’, as quais não podem tocar na bola. Caso isso aconteça, o apito, capaz de ser ouvido a vários metros de distância, é soprado por Césão, professor de Educação Física e treinador voluntário há um ano, que provavelmente não deve ultrapassar os 30 anos de idade, para sinalizar a invalidade da jogada.

Césão dá as instruções para os jogadores e simula em movimentos lentos o que é necessário ser feito. Ele precisa fazer adaptações aos treinamentos por conta das deficiências dos atletas, que sentem dificuldade para executar os exercícios propostos no que diz respeito a melhora do controle de bola, movimentação lateral, coordenação e agilidade. Juninho aponta o uso das muletas, assim como a adaptação a elas, como principal complexidade no processo, mas que se trata de duas coisas que melhoram com o tempo e a prática.

Um problema pode ser percebido longe dos gramados. O coordenador do projeto, Willian, faz anotações em uma prancheta: os rabiscos eram referentes à adesivos com o escudo do time e rifas, que tinham como prêmio duas camisas autografadas por jogadores do elenco principal da Ponte Preta. O valor arrecadado serviria para ajudar nos custos da viagem do time de amputados para Cosmópolis-SP, onde foi disputada a Copa do Brasil da modalidade entre os dias 28 de abril e um de maio. Essas foram as alternativas encontradas para gerar receita ao time, que não recebe verba oriunda de patrocinadoras. “Infelizmente, ainda é pouco divulgada. Os jogadores vêm mais pela oportunidade de praticarem um esporte, porque não ganham nenhum tipo de salário e possuem outras profissões no dia-dia”, explica

Apesar das dificuldades encontradas, principalmente em aspectos econômicos, o principal objetivo do futebol de Campinas tem sido alcançado, conforme conta Juninho. Segundo ele, a ideia é proporcionar que os amputados consigam se reinserir na sociedade como um todo, não apenas no que diz respeito à prática de um esporte. “Precisamos mostrar que, mesmo com as limitações que nos foram impostas, somos capazes de superá-las e que a vida não termina por conta de um trauma. Essa sensação de saber que é capaz e o amor de praticar um esporte como o futebol, maior paixão desse planeta, são inigualáveis”, afirma.

Os pontos positivos de se praticar uma modalidade esportiva também são perceptíveis na relação familiar e na maneira como os deficientes são vistos pela sociedade, já que a intenção deles é não passar uma imagem de ‘coitadinhos’, mas sim de pessoas as quais querem superar barreiras impostas pela vida. “Com certeza, aqui aprendi mais que ensinei, mesmo sendo o professor”, disse Césão com a satisfação escancarada na expressão de seu rosto.

Para Willian, a tendência é que o futebol para amputados se popularize no Brasil com o passar dos anos. Dos quatro clubes considerados como os principais do estado no profissional, apenas o Palmeiras não tem um time na modalidade. Corinthians, Santos e São Paulo já formaram seus elencos e disputam o Campeonato Paulista. O coordenador agradece que reportagens sobre o tema estejam sendo feitas, pois esse é outro método para expandir a atividade. “Tenho certeza que estamos no caminho certo. Queremos que, em breve, o futebol para amputados se torne popular no país”, completou.